O Camaleão de Rezende

11 setembro 2006

A acompanhar...

3º Encontro Nacional e 1º Encontro Luso-Galaico sobre Weblogs

Aquecendo...

Não sei se este blogue ainda tem leitores (se é que alguma vez teve). Ainda assim aqui fica o pedido de sugestões de links para aqueles que mais apreciem. Muito tempo de ausência depois, afastado da blogosfera, confesso que me senti um pouco às aranhas. Entretanto, muitos fecharam, muitos abriram... A lista vai sendo actualizada aos poucos, tal como já foi hoje.

Cubram-se de qualquer coisa, senhores.

Ontem à noite, o ex-humorista em declarado fim de carreira, entrevista Helena Sacadura Cabral e Eduardo Prado Coelho.
Num ambiente semelhante ao que poderia ser o de qualquer encontro das elites portuguesas: aborrecido, vazio de conteudo e até um pouco hipócrita. Não tanto por culpa dos convidados, pareceu-me.

Ainda assim não deixa de ser triste ver a senhora explicar que a marmelada fica escura porque os marmelos são cortados (hã?!?) . Já o senhor aceita a armadilha do Herman José e acaba por se pôr a gabar a capa (a capa?!?!?) do seu próprio livro...

27 agosto 2006

A paz podre

Hoje, no pódium do grande prémio da Turquia em Fórmula 1, Fernando Alonso (2º lugar) e Michael Schumacher (3º lugar) evitaram de todas as maneiras cruzarem-se, olharem-se ou mesmo molharem-se com champanhe. Reza a lenda que Schumacher tem mau perder e gosta de dar golpes baixos como a Villeneuve no grande prémio de Espanha de 1997...

Não sabendo eu que razões levam os dois melhores pilotos da actualidade a comportar-se desta maneira não posso deixar de achar estranho que Alonso tenha cumprimentado o vencedor (Felipe Massa), que ganhou a sua primeira corrida. Os meus preconceitos dizem-me que o problema ali está no galo que perde o poleiro. Mas admito até estar enganado.

26 agosto 2006

Dois anos e meio depois

Algumas coisas mudaram. Não tanto as ideias, talvez a vida permita agora novas descobertas. Pelo menos assim espero. Tempo de recomeçar a escrever.

Primeiras tarefas:
-reorganizar os links
-lavar a cara ao template

20 janeiro 2004

O repositório.

Dado as dificuldades óbvias de manter o ritmo da escrita neste local, será utilizado como mero repositório dos links que visitarei nos momentos em que deveria ocupar o tempo livre a escrever aqui.
:)

31 dezembro 2003

Meta-discussão

Sempre atrasado, li com atenção o texto publicado do arame, sobre a razão de ser de muitos blogues (despoletado, pelos vistos, pelo avatares). Muito interessante (o texto), mas mais interessante ainda é ver os comentários dos leitores do arame - pelo menos de alguns - mas disso não falarei.

Não creio que o problema dos blogues temáticos seja a monotonia. Nem me parece que seja essa a discussão. Os blogues não têm um objectivo. Os blogues têm tantos objectivos quantos aqueles que os seus autores queiram ter. Alguns, como por exemplo a sombra, definem-se como um blogue editorial (é pouco mais que um blogue pessoal nos últimos tempos). Outros que à primeira vista deveriam ser blogues editoriais, são um mero repositório de textos que vão saindo na imprensa. É o caso por exemplo do SOS Racismo. Há blogues que são grandes pontos de encontro de muita gente e em que a audiência acaba por ser aparentemente secundária. É sempre a sensação com que fico ao ver o blog de esquerda ou o blogo social português.

Distingo deliberadamente "audiência" do "muita gente". "Audiência" é o que procura o Pipi ou o Pacheco Pereira. "Gente" é o que procuram outros. Outros ainda procuram apenas organizar ideias e podiamos continuar por aqui adiante indefinidamente.

Os blogs não têm um objectivo, nem servem para satisfazer uma necessidade. Uma das dificuldades que tenho é precisamente essa. Procurar classificar algo particularmente difícil de classificar. A minha lista aqui ao lado direito é exemplo disso mesmo. Nem eu próprio sei muito bem porque dividi os blogues desta forma. Um blogue sobre fotografia é enfadonho? Um blogue que fala apenas de racismo é reducionista? Um blog como o da escola da ponte é monótono?

Haverá diferentes respostas a estas perguntas. No entanto «um blogue gay, um blogue feminista, um blogue anti-racista, um blogue que dê voz aos direitos dos imigrantes, das pessoas com deficiência, dos desempregados» não é necessariamente um blog panfletário e gerador de ruído de fundo. Não há aqui qualquer nexo de causalidade. E é apenas por isso que o texto do arame falha.

Sobra-lhe em inteligência (e em conhecimento dos blogues) o que lhe falta em termos de argumento. Mas mais uma vez, não diria que isso seja neste contexto o mais importante.

As linhas que cosem

Os desejos de ano novo da direcção editorial do Público são notáveis. Não porque eu concorde em particular com grande coisa do que por lá é escrito, para lá das banalidades do momento. O texto é notável sobretudo porque nos permite saber exactamente que posição tem o jornal sobre o mundo que nos rodeia e sobre as notícias que nos apresenta diariamente. Saudável, transparente, sério e cada vez mais raro.

24 dezembro 2003

Invasões Barbaras.

Um filme sobre as contradições da vida. Sobre a liberdade individual. Sobre a vida em comum. Sobre política. Sobre as desilusões. Sobre o século vinte. Sobre vida da pequena burguesia europeia, ainda que no Canadá. Sobre os sonhos de adolescente. Sobre a amizade profunda. Sobre o amor filial. Sobre a família. Sobre o fim das velhas famílias. Sobre o princípio de novas famílias. Sobre sexo. Sobre o erotismo. Sobre a velhice. Sobre a doença. Sobre a morte. Sobre a eutanásia. Sobre a paixão. Sobre as crenças. Sobre a vontade de mudar o mundo. Sobre o prazer de o saborear. Sobre a vontade de se ser ímpar. Sobre a sensação permanente de insatisfação. Sobre as drogas. Sobre o seu consumo. Sobre a sua habituação. Sobre os cuidados de saúde. Sobre a sua crónica crise. Sobre o dinheiro. Sobre a falta dele. Sobre a corrupção. Sobre a sociedade da informação. Sobre mim e, assim espero, sobre ti.

De vir às lágrimas de riso e de tristeza.
De guardar junto ao coração para quando nos esquecermos de nós próprios.

O site oficial.
Outras informações (em francês)


| Rémy Girard | Marie-Josée Croze | 2003 |

22 dezembro 2003

Amigos

E amigas... Que és unha bitácora?

Diversão...

A ignorância diverte...

Bucolismo de época.

E agora, João, não te armes em esperto. Come o que tens a comer no Natal, trata do que tens a tratar com a tua consciência e trata de continuar a escrever no sítio do costume.

18 dezembro 2003

O outro lado do Minho

A Galiza é para mim o espaço mágico das aventuras adolescentes. Visitei-a primeiro com os meus pais, ainda catraio, numa época em que as filas sobre a velha ponte metálica de Valença faziam penar as gentes de cá e de lá. Passei férias em Sanxenxo, onde percebi que preferia observar as velhas a baterem com o polvo nas rochas, passear a pé na ilha de Ons ou descobrir as idiossincracias dos cereais de pequeno almoço "espanhois" do que mergulhar nas águas geladas da ria de Pontevedra.

Depois voltei várias vezes para conhecer melhor aquilo que sempre senti, de alguma maneira, ser uma parte de mim. Recordo-me de um velho em Ribadeo, última vila galega em direcção a leste, explicar-nos com grande entusiasmo como falavamos a mesma língua. Jovem de 14 anos, não percebia do que ele falava, tal como nunca havia percebido porque razão o meu avô transmontano me contava à lareira anedotas em que os galegos humilhavam sempre os espanhois. Para mim a diferença não existia. Do lado de lá da fronteira estavam os espanhois que por gânancia sempre nos procuraram invadir, tal como me ensinaram na escola primária.

Descobrir a Galiza foi pôr em causa a história que me contavam. E como qualquer aprendizagem, se esta fôr feita de forma subversiva, é sempre mais educativa e persistente.

Volto sempre que posso à Galiza. Onde voltei para descansar no paraíso da Ilha de Arousa. Onde descobri as marginais da Corunha, cidade mal amada pelos seus próprios habitantes. O resto da Galiza não se resume ao chocolate quente único que por lá se pode tomar ou aos petiscos comidos com palito nas tascas de qualquer vilória...

Aí voltei, a Muxia, após o desastre do Prestige. Fiquei de tal forma chocado pelo abandono em que encontrei os que por lá se expunham ao negro que ainda hoje marca os tapetes do meu carro, que ainda hoje não sei bem o que sinto sobre o que por lá se passou (e ainda se passa). Mais chocado fiquei depois com os resultados das eleições locais de 2003.

Nada disto no entanto apaga a minha paixão pela Galiza e foi com muito entusiasmo que descobri o óbvio. Por lá também se escrevem blogues. Por lá passarei a passear os meus olhos. Ainda saberei escrever em Galego.



16 dezembro 2003

ah bom!

O que eu fiquei satisfeito por, quase por acaso, ter tropeçado no Via Dupla. Poucas palavras cá e lá.

Purgue-se

Recebo por correio electrónico a notícia da expulsão do PT da senadora Heloísa Helena. Esta mulher, militante do PT desde sempre, é membro do seu Directório Nacional e da sua Comissão Executiva. Faz parte da DS, tendência Democracia Socialista, ligada à Quarta Internacional, designada pela imprensa brasileira como os "radicais", é o equivalente em Portugal ao PSR, actual corrente do Bloco de Esquerda.

A razão da expulsão é simples. Heloísa Helena, em conjunto com outros deputados, votaram contra a reforma do sistema de pensões brasileiro, onde começa a ser aplicada a doutrina neo-liberal: entrega da fatia lucrativa ao sector privado, individualização das formas de assistência e redução do sector público ao assistencialismo aos mais pobres dos mais pobres. Trata-se de dar forma de lei às conhecidas imposições das normas do FMI e do Banco Mundial ao paises sub-desenvolvidos.

O facto de Heloísa Helena ter defendido a posição histórica do PT, de ter defendido o programa eleitoral do próprio PT parece nada ter pesado na expulsão agora determinada. O PT havia combatido propostas semelhantes por parte do liberal FHC.

O actual processo parlamentar voto foi conflituoso de raiz, o que fez com 24 deputados (do PT) tivessem decidido não participar na votação, 7 decidiram abster-se (para não votar nem contra a sua consciência nem contra o partido) e 3 (Luciana Genro, João Baptista e João Fontes - agora expulsos) votaram contra.

Vem-me à memória o facto de Karl Liebknecht votar só, no parlamento alemão, em 1914, contra o SPD e contra a direita alemã, os créditos de guerra que levariam a Alemanha para a Guerra. Guardadas as devidas distâncias e circunstâncias históricas, fica a marca da coerência daqueles para quem a política não é mera retórica de tribuna.

Artigo do Combate sobre o debate interno do PT

Um pouco de cinismo.

Um país invade outro, só porque sim, conta uma série de mentiras obscenas sobre o assunto, mata uns milhares de autóctones, substitui-se no governo do dito, rasga à frente das câmaras todos os tratados internacionais, assume aquela atitude do ou se portam bem ou vão a seguir e agora anda toda a gente preocupada com o como e onde vai ser julgado o Saddam. Julgar o Saddam? Acho mesmo que o mais divertido é a forma como toda a gente leva discussão a sério.

15 dezembro 2003

Agora as colónias.

No mesmo fim de semana em que conversei sobre a guerra civil espanhola, o regresso a casa proporcionou-me uma conversa desconfortável, desta vez sobre a guerra colonial.

De entre todas as brutalidades que se podem cometer durante uma guerra, aquela que será das mais invisíveis reside na brutalidade que é infligida aos jovens acabados de sair da adolescência que são atirados para fora de casa para matar e para morrer.

Muitos pagaram com a vida a defesa do regime colonial, sem que ninguém lhes tivesse pedido opinião sobre o assunto. Os sobreviventes - muitos mais - transportam silenciosamente a mágoa das mortes que provocaram, sem razão aparente a não ser a do matar para não morrer. Escondem-se assim das suas próprias famílias, daqueles com quem vivem. Procuram assim apagar essa memória de si próprios, até que, 30 anos depois percebem que jamais esquecerão o toque do gatilho e o vibrar de uma G3 virada para gente desarmada.

A guerra colonial é uma história mal contada. Todos se escondem por não saberem a quem apontar a culpa. Todos vivem nessa vergonha eremita de sentir uma culpa inexplicável pelo facto de terem sido forçados a viver uma vida que não queriam.

Sorrio nervosamente ao ouvir o Paulo Portas a falar da descolonização e dos antigos combatentes. Aquele fedelho de sacristia ao defender tão descaradamente o colonialismo, defende a lógica da guerra colonial e da sua brutalidade para com os jovens portugueses. Naturalmente o discurso fácil de engate dos retornados poderia colher votos no pós 25 de Abril, hoje limita-se a ser insultuoso. Viver neste país hoje é pouco mais deprimente que isso.

11 dezembro 2003

Ainda a Guerra

Uma borla para estes meninos.

O meu avô transmontano descreve com detalhe as relações estabelecidas entre os republicanos espanhois que atravessavam a fronteira espanhola no distrito de Bragança e as populações locais. Segundo as suas palavras, as leis eram muito sérias nessa altura. O isolamento das populações era tremendo. Não existiam vias de comunicação dignas desse nome, o analfabetismo era a regra e o padre era o centro político do mundo. Não se pode dizer que as gentes soubessem bem o que se passava em Espanha e em certa medida, sinto que não saberiam bem aquilo que se passava em Portugal. E em certa medida era esta inocência e a hospitalidade rural o que podia ajudar alguma coisa aos exilados da Republica.

As histórias por ele relatadas passam-se em Vinhais, concelho fronteiriço, parcialmente parte do parque natural de Montesinho.

Numa das vezes diversos homens (3-4) espanhois contrataram um automóvel para se deslocarem até ao Porto durante a noite. O medo faz do motorista português um bufo. É assim que eles são denunciados à polícia. À saída de Vinhais, já noite, uma barreira policial espera-os. O chefe da guarda, que veio propositadamente de Bragança para participar na emboscada dirige-se à viatura de arma em punho. É o primeiro morto da noite, com um tiro na cabeça. Morre mais um guarda e pelo menos um dos espanhois. O resto da história não circulou nas aldeias.

Noutra das vezes, diversos homens que saltitavam de aldeia em aldeia instalam-se em abrigos naturais da zona de Nuzedo, junto a Rebordelo. Os republicanos movimentavam-se com dinheiro nos bolsos, o que em parte lhes dava um grande poder negocial junto à população portuguesa que praticava ainda muita troca directa. No entanto, de novo, uma denúncia fez que com que a guarda (ou o exército? «os soldados») se tenham dirigido ao local. Recebidos com fogo violento, retiraram para pedir reforços. Quando voltaram não encontram ninguém. Pelo menos é esta a história que circula.

Finalmente, um republicano é hospedado seis meses, a troco de uma renda por ele paga, por um homem da região. Por uma razão ou por outra foi denunciado (presumivelmente pelo seu hospedeiro) tendo sido assassinado pela guarda portuguesa à porta da casa que o acolhia.


A guerra não é uma coisa distante. Ela tocou os meus avós. Ela tocou os meus pais. Na pele. Com o cheiro a morte a rondar. Não vou mentir. Tenho receio. Não direi medo. Medo é outra coisa. Mas tenho receio do entusiasmo com que tanta gente fica com o cheiro a pólvora.

E eu em casa.

Esta noite há uma festa do vinil no Batô. Organizada pela mesma rádio do post anterior.

Recordo-me da sensação estranha que foi estar naquela discoteca pela primeira vez na vida. Entramos com um grupo de amigos da escola secundária, a maior parte incapaz de reconhecer as músicas que por lá passavam. Lembro-me do desafio das compinchas com quem trocava discos de vinil para ir para o centro da sala, por cima do chão de madeira, abanar o corpo. Nunca o tinha feito. Conhecia as músicas de trás para a frente, mas nunca as tinha dançado.

Era (é) um espaço notável. O ritual de visita ao Batô implicava poupar dinheiro durante algum tempo para conseguir pagar o taxi de regresso a casa. Era preciso preparar meticulosamente os pares de rapazes e raparigas, para podermos entrar todos e levar o BI sempre à mão para desmentir as nossas carinhas imberbes.

Tinha grande gozo em observar como no final da noite a debandada era acompanhada pelas melhores músicas. Já com as meninas loirinhas da foz fora da pista, era ver meia dúzia de carolas a dançar sorridentes (!) ao som de Forest, dos Cure, do Ziggy Stardust, dos Bauhaus ou de Transmission, dos Joy Division.

Ainda hoje quando ouço determinadas músicas penso imediatamente: «isto é uma música do Batô». Por exemplo o Candy, do Iggy Pop, cantada a meias com uma das sex-symbols da minha adolescência.

Esta noite a minha vontade é lá ir. Já recebi dois convites. E eu que era o fanático, acho que vou ficar em casa...


| Kate Pierson | The B52's |

09 dezembro 2003

E o dia começa bem.

Esta manhã, o frio de fazer tremer os ossos, a cabeça pesada, a vontade tremenda de prolongar indefinidamente o fim-de-semana. O sabor morno do leite, o bolo de nozes fofo, o frio da camisa na pele.

Na Voxx, o som dos The The. Que pena o trânsito estar tão fluído, pensei.

05 dezembro 2003

words, not deeds.

Olá Rui,

lido bem com a ironia mordaz e gosto bastante dela. Com o cinismo lido pior e foi essa a razão de ser da minha crítica. Não quero entrar em grande polémica com alguém que parece estar mais à vontade do que eu nas questões relativas à ocupação israelita da palestina. Por isso vou mais apontar posições de princípio do que argumentar factos passados ou leituras históricas. No essencial até penso que estamos de acordo. Até porque acredito piamente que só «quando judeus e muçulmanos coexistiam em harmonia, na Palestina» é que haverá paz.

Isto teria várias implicações:

* A existência de um estado multi-étnico, israelo-palestiniano, onde os seus cidadãos pudessem ter liberdade cultural, de culto, de circulação e onde o estado laico fosse a garantia de igualdade política.

* O fim das injustiças históricas que resultam da ocupação e das expulsões dos habitantes naturais dos territórios da Palestina pré-israelita.

* O fim da lógica militar dos dirigentes israelitas e palestinianos (o que me parece ser um dos objectivos de Genebra) capaz de sair do beco sem saí­da que terá como resultado a criação de dois estados fidagalmente inimigos e que crescerão em campos internacionais distintos e inimigos. O mesmo que aconteceu na Jugoslavia. Onde a manta de retalhos será a cicatriz permanente da guerra, visível nos mapa-mundi.


Finalmente quanto ao "deeds not words". Entendo a sociedade como um campo de combates entre opiniões diferentes. Nada está determinado à partida e nada pode ser determinado exclusivamente pelas direcções políticas de "topo". É necessário desmascará-las, é necessário enfrentá-las, é necessário apresentar as "nossas" alternativas. E sobretudo acabar com o cinísmo que não dá resposta a coisa nenhuma.

E se isso começar em reuniões como a de Genebra, tanto melhor. Dirás que estou equivocado. Talvez esteja, mas prefiro pensar que a paz resultará antes da vontade dos vivos do que do facto de estarem todos mortos.


Um abraço,
João


P.S. O Rui Tavares tem uma opinião que também merece ser lida.



| O Muro |

Mais fotos em:
From occupied Palestine

03 dezembro 2003

Não o matem para já

Fui ver o Kill Bill. Já em fim de festa, é certo, mas lá fui ver.


| O-Ren Ishii | Lucy Liu | 2003 |


Diálogo de A com B:

A- O novo filme do Tarantino não é um filme de kung fu?
B- Não, nada disso. É uma coisa completamente diferente.
A- Sim? Em que sentido? A história é sobre o quê?
B- Bom. Não há grande história. É uma vingança.
A- Mais nada?
B- Bem, quase mais nada.
A- E tem cenas de combate ou não?
B- Sim, muitas.
A- Então é um filme sem grande história, com muitas cenas de combate... É um filme de kung fu.
B- Não é! Já te disse, vai ver o filme caraças.


É isso vão ver o filme.

Vê-se com um sorriso malandro nos lábios, alternado com um sorriso de admiração profunda. Somos, como espectadores, colocados a uma distância que nos dá a dimensão do gozo do realizador. O Cruzes diz que é cinema em estado puro. É verdade. Tarantino mexe-se como um peixe dentro de água na linguagem do cinema. Os saltos temporais são alucinantes, o ritmo da história é imparável, os géneros misturam-se em zappings pelo próprio enredo - uma passagem pela animação japonesa faz-nos perceber que o que vemos é uma sequência de actos, como se assistissemos a uma peça teatral.

O filme tem esse dom. Não se consegue explicar, mas fica-se com a secreta vontade de ver segunda vez.

O filme é «(...)uma espécie de ‘trip’, um gozo do princípio ao fim, onde no rendilhado entra a música, as referências, as auto-referências e as hommages.» E é esse todo o seu gozo.

Não tem o génio do Pulp Fiction, mas agrada-me mais que o Jackie Brown. O cinema americano para ser bom não precisa de se armar em inteligente. Basta ser bom cinema americano.

O site oficial do Kill Bill


Os putos também comentaram o filme mas para aqueles lados não há permalinks. Vejam lá o template.

02 dezembro 2003

A guerra sentada ao meu lado.

Nunca imaginei a guerra como uma coisa próxima. Sentida. Sempre dela mantive uma imagem distante, longínqua. Uma representação cinematográfica, encenada e portanto inexistente. O fim de semana passado senti-me incomodado. Ela esteve sentada ao meu lado.

Não pode ser

Ouvi falar pela primeira vez na reunião de Genebra (sobre o conflito israelo-palestiniano) há apenas alguns meses atrás. Evidentemente que me pareceu uma iniciativa de louvar, sobretudo por sentar à  mesma mesa gente dos dois lados da barricada e com vontade de acabar com ela de uma vez por todas.

A extrema-direita israelita e a extrema-direita palestiniana certamente que não olharão para iniciativa com bons olhos. Evidentemente que o alcance da mesma estará limitada pela contigências de um combate que não é exclusivamente político e tem a marca permanente das armas.

Não percebo as razões do cinismo com que se escreve um texto como o que foi publicado pela sombra. Na verdade não vejo como pode alguém dizer que o ideal é «judeus e muçulmanos coexistiam em harmonia, na Palestina», apelidar tal encontro de «circo inútil».

Ora é essa precisamente a questão. Não é apenas um problema de judeus e muçulmanos aquele que se vive na Palestina, tal como na Irlanda do Norte não é um problema exclusivo de Católicos e Protestantes. A questão é a dominação, com trejeitos de apartheid, que se verifica entre comunidades de origens sócio-culturais (e históricas) diferentes.

Não imagino o que é ser ateu no meio daquela confusão. Não imagino o que é ser judeu palestiniano (os judeus que sempre habitaram aquele território e foram hegemonizados pelos imigrantes) ou ser muçulmano israelita. Mas sei bem que abdicar do direito de retorno é das decisões políticas mais dolorosas para qualquer palestiniano.

É aceitar historicamente a ocupação tendo como moeda de troca a paz. É fazer a paz entre dois estados que deviam ser um. Multi-étnico. Multi-cultural. Democrático. Fraterno. Livre. Em paz.